24 de fevereiro de 2017

Ruga de mim.





A minha saudade corre em fio pelo mesmo sitio todas as vezes que me procura.
A minha tristeza percorre o mesmo sítio até me cair do rosto.
Todas as minhas lágrimas escorrem em fio pelo mesmo sítio.
Até a dor é perfeita e sabe por onde andar.
Dizem-nas sinais do tempo.
Digo-a sinal de mim.
Fez-se-me no rosto a ruga perfeita para encaminhar todas as minhas dores.
É por ela que todas as minhas saudades, dores e tristezas escorrem.
É dentro dela que corre um rio entre vales perfeitos.
É nela que encontrarei os amores afogados, as dores caladas e as mágoas afundadas.
É nesta ruga que hoje me marca a cara que passam e permanecem as histórias da minha vida.
Passo a mão  pelo rosto e ao senti-la... sinto o que por lá se esconde .
Terá o acaso sido o tempo de a ali marcar.
Terá a vida feito cair tantas lágrimas que por ali passarem a esculpiram.
Digo-a sinal de mim porque encaminha a minha saudade, as minhas dores e as minhas tristezas.
Correrão as lágrimas por ela se um dia a alegria for o motivo...

23 de janeiro de 2017

Luta.




Tem sido difícil a luta.
Onde anda a menina.
Onde anda a mulher.
Onde anda o amor por mim.
Preciso esconder-me.
Secar outra vez.
Esconder-me outra vez.
Esconder as lágrimas na chuva.
Encostar-me a um canto.
Abraçar-me a mim.
Quem levou a menina.
Quem levou a mulher.
Quem me tirou o amor por mim.
Choro-me na água que lava o rosto.
Procuro-me num calor que não é meu.
Vivo-me numa estrema força desigual com o mundo.
Tem sido difícil a luta.



22 de janeiro de 2017

Preto negro



Pinto os meus olhos de preto todos os dias .
Nos dias como os de hoje há desenhos pelo meu rosto .
Um preto que fica negro na face e me afunda os olhos.
Traz à luz olhos de esperança.
Pedidos de ajuda para voltar a ver outros olhos.
Voltar à luz e ver outros olhos.
Voltar à luz e ver outras luzes.
De um poço fundo de onde a luz só é raio.
Raio só é raio se houver sol.
Sol há todos os dias.
Raio se não chover.
Tem chovido pouco por aqui.
Nem assim o sol está forte.
Nem assim chega luz lá ao fundo.
Então que chova.
Se chover lavo o rosto.
Se chover não haverá negro por muito tempo.
Então que chova.


13 de janeiro de 2017

Sem ti





Será assim
Deitar-me-ei o resto da vida sem ti
Acordarei para o dia outra tanta vida
Viverei desacordada alguma dessa vida
Nem por isso deixará de continuar
Matarei a minha sede milhares de vezes
Irei esquecer-me de comer outras tantas vezes
E a vida vai continuar
Será assim
Velarei noites sem fim até me esquecer do sono
Acordarei no acaso em algumas noites de frio
Não há como não ser assim
Assim será
E é assim que vou ter que viver
Sem ti

18 de outubro de 2016

Poeto-me.

Poeto-me por um amor que me abandonou.
Poeto-me porque o meu adormeceu.
Poeto-me porque nunca voltará mesmo que vivo.
Poeto-me porque vivo tão perto do que me quer e me condena.
Poeto-me a cada noite de tempestade.
Poeto-me a cada dança lembrada dentro daquele vestido vermelho.
Poeto-me porque me culpo insistentemente por falta de liberdade.
Poeto-me porque sou escrava de um amor sem volta.
Poeto-me por não querer saber o que isto é.
Poeto-me por amores que o não são.
Poeto-me a cada esperança que nasce, em cada palavra que leio.
Poeto-me.

17 de outubro de 2016

Porque amo.

Guardo há anos o centro da minha cama.
Continuará a ser um espaço vazio cheio de esperança.
Lençóis vazios de sentido mas cheios de abraços a eles.
O centro da minha cama continuará assim, vazio.
Tantas vezes desisto e tento ocupa-lo. Em vão.
Espaço que teima em existir assim, vazio.
Guardo há  anos um espaço vazio no leito onde me deito.
Permanece assim, despido desde o dia em que ficou desfeito.
Espero por quem não vai voltar.
Porque amo.

16 de outubro de 2016

Deixa-me em paz.



Bebo as minhas lágrimas.
Mato a sede ao sentimento.
Desespero-me só porque me faltas.
Mais uma vez me faltas.
Mais uma vez te choro.
E mais uma vez te escondo dentro de mim.
Esta vida de um viver dormente que me apaga a vontade.
Que me sacode o sono e ninguem sabe.
Deixa-me em paz,  suplico-te, deixa-me em paz.
Fazes de mim o que queres e do que queres não queres nada.
Quizesse eu que as lágrimas me doessem o quanto me dói a alma.
Para que talvez, talvez procurasse uma cura.
Ou nem assim o faria.
Saio daqui e corro becos e ruas e ruas para aliviar a saudade.
E esta saudade traz as lágrimas e tudo começa outra vez.

13 de outubro de 2016

Estranhos vazios.




Cheia de vazios.
Lugares de mim, em mim.
Vazios de mim e por mim.
Tão cheia de vazios.
Lugares estranhos de vazios estranhos.
Crescem em mim vazios que me consomem.
Estranhos vazios estes que não se ocupam.
Estranhos vazios estes que me ocupam.
Procuro-me neles e neles me perco.
Vazia de vazios.
Cheia de vazios.
Procuro-me neles e neles me perco.
Vazia.
Tão vazia!


9 de outubro de 2016

5 de outubro de 2016

Restos de mim.





Hoje estou feita de trapos.
Panos sem goma.
Monte de trapos, quase desperdício. 
Estou ferro velho.
Ferrugem cravada no chão. 
Hoje estou água parada.
Charco sem chuva.
Hoje estou feita de vidro.
Cacos de vidro, quase pó. 
Construída de restos de mim.
Hoje não consigo ser.
Vejo-me em tudo, menos em mim.
Restos de mim.
Trapos enferrujados e vidrados em mil pedaços. 
Restos de mim.

3 de outubro de 2016

Exausta.


Exausta. 
Sinto-me exausta, hoje.
Amanhã estarei exausta mas forte. 
Hoje estou exausta sem força. 
Caminhei,  caminhei e voltei ao local de onde parti.
É por isso que daqui voltarei a partir.
Nada mudou. 
Volto sempre aqui.
E, tudo o que me fez cansada e exausta, aí. Onde nada sou. 
É assim que continuarei a ser. 
Exausta de te viver.
Exausta de querer querer-te, mesmo depois do cansaço de querer ser aí. 
E continuarei a viver.
Exausta, mas a viver.
Nunca voltarei a ser eu aí. 
Exausta de não ser, mas a viver.


21 de setembro de 2016

Onde estás?







Vejo-te no carro ao lado.
Procuro-te naquela mesa do café que está à minha frente.
Imagino que me procuras com a mesma ânsia.
Quero acreditar que o fazes mesmo que o negues até a ti próprio.
Não precisas de dizer-mo.
Eu sei que o fazes da mesma forma que eu o faço.
Se assim não fosse não teria sido amor.
E eu sei que foi.
E eu sei que é.
Vives como eu. Comigo.
Sabes porque sei?
Porque sentimos igual, fomos um.
Não, não morreu.
Dorme.
E, o que dorme um dia acorda.
E, um dia, pode ser no carro do lado, na mesa do café.
Diz-me onde estás.




19 de setembro de 2016

Outra vez.




Vou viver outra vez.
Vou voltar a viver para podermos viver outra vez.
Quero que seja tudo igual outra vez.
Que me ames livre outra vez.
Que te possa amar até lá e continue a amar sem talvez.
Quero morrer uma outra vez.
Para viver contigo mais uma vez.

Que o brilho dos olhos acorde.
Que a dor de nascer amor te desperte.
Que eu seja mais forte que o talvez.
Porque sei que ao viveres outra vez te vais esquecer que morreste para me poderes dize-lo outra vez.
Tudo vai ser outra vez.
E me viverás sem talvez.

Vivo para morrer e viver outra vez.
Porque o teu amor sem talvez vai voltar outra vez.
Espero por ti noutro lugar onde me possas amar.
Espero por ti outra vez para te ter outra vez.

7 de setembro de 2016

Dor de viver.




Que dor tão forte esta de viver.
Querer não ser e não poder.
Querer morrer e não viver.
Que dor tão grande esta de viver.

Esqueçam-se de mim.
Deixem-me não ser.
Não quero ter início nem fim.

Que dor é esta que não se chama.
Que vazio eu tenho que não o tenho.
Que força é esta que me mantém sem chama.

5 de agosto de 2016

Loucura saudável.


Porque preciso de solidão e ninguém entende.
O meu corpo inventa-se.
Adoece pela necessidade de estar só. 
A alma adoece-me o corpo pela necessidade de ser só. 
Ser alma em corpo precisa de paredes nuas, de luz apagada, de cabeça vazia.
O meu corpo ensandece porque a alma o contradiz. 
Porque assim é, assim fico.
Deito-me nesta cama e aqui permaneço imóvel até que a solidão baste.
Uma espera inquieta com o medo que me encontrem e descubram esta minha loucura.
Deixem-me sofrer esta solidão. 
Deixem que ela queira acabar.
Preciso que assim seja ou ensandecida morrerei em vida.
Mundo cheio que me deixa vazia de vontades.
E vazia de vontades procuro nada ser para voltar a ele.
Nesta loucura encontro enfim a sanidade para ser igual. 
Outro dia qualquer voltará a loucura e voltarei aqui, mais uma vez com falta de sanidade inventada.
E continuarei a viver.


4 de agosto de 2016

Cinzas.


Hoje a luz preparou-se para me prender.
Fechou-me neste quarto, correu a persiana e deixou-me escura.
É assim que me sinto, sem luz, fechada num arco íris em tons de cinza.
A pouca claridade que me chega à íris traz uma não vontade. 
Não vontade de ser.
Não vontade de estar.
Não vontade de querer.
Não vontade da cor.
Do lado de fora desta não vontade está o que sempre esteve.
A realidade da cor.
Hoje a luz é pouca e de pouca trouxe cinzas.


26 de julho de 2016

Aos olhos do tempo.



Aos olhos do tempo vou morrer.
Um dia o tempo vai achar que no meu corpo alguma coisa não funciona.
E quando o tempo assim o quiser vou morrer.
Morrerei em corpo.
Aos olhos do tempo não existe alma.
É a alma que o tempo não mata mas acrescenta.
Que haja alma para contrariar o tempo.
O tempo não mata o que não tem corpo.
Aos seus olhos não morrerei porque sou alma em corpo  emprestado.
Dentro de mim sou o eu que ninguém vê.
E o que ninguém vê é tudo.
Vivo aqui dentro e é aqui dentro que a liberdade me constrói.
Aos olhos do tempo nada sou senão um corpo.
Aos meus sou tudo dentro de um corpo que a ele pertence.

21 de julho de 2016

Diz tudo.




Escondemos sentimentos.
Não falamos o que queremos.
Temos vergonha de sentir.
Temos ainda mais vergonha de demonstrar e falar.
Pensamos de mais antes de dar.
Respiramos vezes a mais desde que sentimos até que mostramos.
Perdemos intensidade no tempo que não usamos.
Somos egoístas,  envergonhados, somos mal amados.
Não somos nada se não somos.
Eu sou tanto.
Sinto tanto.
Tenho alma rota.
Não perco como me dizem.
Ganho-me em alma, em calor e em amor.
Digo tudo.
Estou a aprender a fazer tudo.

19 de julho de 2016

Morrer de alma.






Nunca será um erro acreditar no outro.
Nunca vou olhar para um "atrás" com a ideia que idealizei mal.
Continuará errado quem usa uma alma clara para achar que sendo clara será ingénua.
Agradeço a mim o continuar a ser pequenina.
Agradeço à vida que me fez assim.
Haverá outros  "outros" que assim não são.
Continuarei a acreditar.
Melhor, continuarei a nem precisar de acreditar. Mas partir de um princípio de certeza.
Morrerá de alma quem assim não viver.
Será morto de alma quem assim não vive.

17 de julho de 2016

Luz morta.


Escondo-me onde só a luz morta me pode encontrar.
É com a noite que a vida se esconde.
É nela que apenas a luz morta me torna ser.
À minha volta apenas luz sem vida.
Porque nem a lua veio hoje.
Hoje, aqui, não há luar.
A luz vai voltar com a madrugada.
Volta o dia com o nascer do sol.
E quando o sol nascer vou voltar a ser.
É com a luz viva que sou.
Que a luz viva me mostre o caminho de dia e me deixe ser.
Que a luz morta seja apenas a luz que não me deixa cair até que seja amanhã. 



15 de julho de 2016

Não acredito no desamor.



O amor que um dia nasce nunca mais parte.
Sim, aprendemos a colocá-lo em algum lugar em nós.
O lugar onde tudo vive e onde tudo parece esquecido.
Quando te digo que te amo, amo.
E amor tem um dia de início mas não tem um dia de fim.
Nunca,  nunca um amor faz mal ao corpo ou à alma se amar.
Pode viver e vive com tudo.
Coabita com muitos outros amores.
Amo-te a ti como amo muitas outras coisas, pessoas, amores.
Sim, amo amores.
Sim, amo pessoas.
Amo o que me ama porque de outra forma seria não ser.

3 de julho de 2016

Alma sem corpo.


Entrei de corpo pela primeira vez naquela casa.
Rapidamente percebi que só ele era estranho ali. 
A minha alma já vivera com muitas das coisas que ali vivem. 
Caí por terra quando me sentei naquele quarto,  nos pés daquela cama.
O espelho.
Era ali que a minha alma se sentara muitas vezes e mesmo sem reflexo, era ali que ela chorava.
Teria sido na frente daquele espelho que eu sufocara sentimentos de lágrimas. 
Certamente o chão molhado secou no tempo em que centenas de horas aquela porta permanece fechada. 
Sentei -me no fundo daquela cama e vi refletida  naquele espelho a alma em corpo que nunca ali estivera assim.
Um quarto despido de qualquer sentido não fosse este espelho que guarda segredos de dor,  segredos calados,  sem reflexo.
Eu tive a certeza que era ali,  na frente daquele espelho, que a minha alma vivia dentro daquela casa.
Foi sentada nos pés daquela cama despida de uma cabeceira que lhe desse vida que tive a certeza que eu sem mim já ali fora inúmeras vezes.


13 de junho de 2016

Não consigo.


Queria estar em muitos lados, queria ser muitas coisas, mas não consigo.
Queria chapinhar naquele charco, mas não queria sozinha.
Tantas e tantas coisas que eu hoje queria e que o peso de mim não me permite.
Não sou nada para além do reflexo de mim.
Não me mostram nada para além do reflexo dos outros.
Não é ali que vivo, nem ali que ninguém vive. Naquele reflexo.
Tem que haver a luz para que sejamos.
Tem que haver sentidos para que sejamos.
Revolta-me ser.
Revolta-me a luz.
Hoje a luz abandonou este local, e é na tela branca que carimbo estas palavras.
Só e só para pedir que, hoje, se esqueçam do meu reflexo.

12 de junho de 2016

Quem nunca.


Aqui, hoje, o mar cobriu-se de nevoeiro.
Cobriu-se para dormir porque está frio aqui.
Vai dormir agitado.
Ouço-o bater nas rochas. Deixa a areia inquieta.
Leva e traz. Leva e traz.
Está frio aqui.
Esta manta que cobre o mar está molhada.
É o mar que chora e soluça.
Ouço as ondas de um mar que chora e soluça.
Quem nunca teve uma noite de choro e soluços?
Até o mar chora e soluça.
Está nevoeiro aqui.
A manta com que o mar se cobriu vai cobrir-me, hoje, também.

7 de junho de 2016

Aconchego.



Olha a lua. Olha a lua.
Foi assim que "miei" quando peguei nela ao colo para lhe mostrar a rua.
Nina, olha a lua. Vês, que linda está a lua!?
É no sentido com que "mio" que ela corresponde.
É no tom agudo do meu falar que ela escuta o meu "miar".
Nina, olha a lua.
Aconchego-lhe o "ninho" da forma que eu gostava se "miasse".
Uma rosa aberta, madura.
É no meio dessas pétalas que ela se aninha, ao meu lado.
Se eu "miasse" era assim o meu "ninho".
Só sei como seria porque "mio" e não sabia.

6 de junho de 2016

30 de maio de 2016

Saudade da chuva.


Hoje volto a deixar a janela aberta.
Resolvi ter saudade da chuva.
Sim, resolvi.
Tudo o que ela me traz eu guardei e só abro a gaveta quando me faz falta senti-la.
Quero lembrar.
Não quero recordar, quero lembrar o bem que já me fez.
Recordar é fruto do eliminado, do perdido. 
E isso eu não fiz e não quero.
Hoje, queria que a noite me trouxesse a tempestade desta lembrança. 
Vou ficar acordada à sua espera, como quem espera que o dia amanheça para ver nascer o sol que certamente não nascerá em dia de chuva.
Vou contentar-me com um luar envergonhado.
Vai restar-me ouvir o mar a contar-me as mesmas histórias de sempre. 
Tal e qual um velho pescador o faz depois de uma vida perdido e achado nele.
Aqui, ao leito desta cama chega apenas uma claridade escura.
Nesta noite,  como em outras tantas passadas, vou aguardar pelo que sei que não vai chegar. 
Porque espera quem sabe que espera pelo que não chegará? 
Espera. 
Que a espera faça o que sempre fez... alimente a esperança. 

29 de maio de 2016

Morro-me.


Morro-me na vida porque passo, na vida porque vivo.
Morro-me de braços abertos, de peito aberto, de frente para trás de mim.
Morro-me a cada momento em que me passam nos olhos as vidas que por mim passam.
Morro-me por todas as mãos que toquei, por todos os olhos que enfrentei.
Tudo e nada vive em mim.
Do melhor retiro o pior e no pior escondo o melhor. 
Tantas vezes é nas piores coisas que sinto saudade do tanto que as antecederam. 
Morro-me de paixões e amores, de afetos e dores... morro-me.
Sigo no eixo do meu caminho e espero que,  nas minhas mãos,  pousem os momentos de saudade. 
Só  a saudade me ajuda a reviver o passado e me engana com o meu consentimento.
Ė neste engano que me refaço. 
É neste engano que volto à tona e de cabeça levantada sigo em frente.
É nesta saudade de pecado que vivi o melhor e o pior.
Ah... tempos sãos, memórias fortes, espaços de memória...
Morro-me de não ter mais vontades.
Morro-me de não ter mais por onde me chorar.





28 de maio de 2016

Bicho estranho.


Dizem...
"O que não nos mata, fortalece-nos."
Digo...
O que me mata também me fortalece.
De que serve morrer forte...
Doem-me os músculos, enfraquece-me a carne, enlouquece-me o espírito. 
De que serve viver forte se a alma não manda, mesmo forte.
Que bicho estranho é este que ninguém vê e me faz enganosa.
De que serve viver forte...
Se este estranho ser se ocupa de ser eu.
Que ser é este que me tomba quando acordo,
me invade os sonhos e os transforma em pesadelos?
Que fortaleza é esta que me enfraquece sendo forte? 
Um Ser que me puxa p'ra baixo.
Um Ser que tem medo de mim quando o consigo vencer,
Mas que, mesmo assim, espera na calada que me volte a deitar?!
Um Ser de mim que alimento sem querer, que se alimenta no meu não Ser.
Se houver quem o leve para um qualquer outro lado, 
Que seja um lado qualquer que não respire, que não ouça,  que não veja, que não  sinta e que, principalmente, que não Seja.
Dizem... mas os que ele não escolhe não o acreditam.



27 de maio de 2016

Sentidos da alma.


Alma nua é invisivel aos sentidos.
Como pode uma alma que ninguém vê se mostrar nua.
Hoje dói-me a alma mais do que alguma vez o meu físico me conseguiu doer.
Eu sei porque dói mas não quero saber.
Eu sei porque dói mas falta-me a coragem de o dizer.
Alma vestida de pesadelos. É assim que ela está hoje.
Vestida.
Porque lhe pesam tanto estes véus que lhe tapam o ser?
O meu corpo, esse, sente-se nu assustado com a alma.
Dói-me do lado de dentro da alma.
Vê-se do lado de fora de mim.
Alma vestida também é invisível aos sentidos.
Só a mim dói. Só eu sei se se veste e porque se veste.
Corpo imperfeito o nosso que da visão nada consegue de certezas.
Adorado na nudez de sentidos imperfeitos.
Devem os sentidos fazer parte da alma.
Só lá fazem sentido.
Aqui, no corpo,  só eu sei o que sentem os sentidos.
Então, deve ser nos sentidos que me dói a alma.

7 de maio de 2016

Vou embora.


Chegou a noite, vamos embora. 
Se a noite for curta aproveitamos a madrugada e continuamos.
Se resolveres ficar no teu jardim, fica.  Eu vou sozinha.
Pode ser tarde de mais e eu vou. 
Planta mal-me-queres e espera que eu volte. 
Nunca vai ser tarde demais se o amor viver em cada flor.
Nunca vai ser tarde de mais se a minha procura não for vã.
Mais uma vez vou entrar na casa grande.
Entre escadas, portas e mais portas, janelas fechadas e chaminés gigantes.
Um dia  descerei as escadas para esse jardim que me vai esperar.
Se eu chegar cá baixo e todas as flores tiverem secado.
Se o jardim que imaginei não for  mais um jardim. 
Vai significar o que tem que significar.
Não que eu tenha feito a escolha errada...
Apenas que não houve amor para alimentar aquelas flores.
Agora, é importante partir porque se for tarde demais pode a madrugada já ser nascer de sol.
E enquanto a noite for noite estarei embriagada pela escuridão. 
A tentação de voltar para trás vai ser menor.





15 de abril de 2016

Feridas da alma.




As feridas curam quando a crosta se despega do corpo.
Mas não curam quando a crosta se despega da alma.
São essas que me consomem os dias, me levam pedaços de vida.
Mesmo assim permanecem feridas sem crostas, que doem em corpo.

Dor de corpo faz esquecer a alma e assume-nos humanos.
Quisera eu ser só alma mesmo que em ferida.
Quem me deixa escolher ser corpo com alma...

Dor de alma faz esquecer o corpo e assume-nos igualmente humanos.
Que faço aqui se não sou eu em mim.
Quem me deixa escolher ser alma com corpo...

14 de abril de 2016

Oliveiras choram mal-me-queres.


Porque choram, as oliveiras, mal-me-queres?
Enchem-se os campos da flor do acaso.
Caem-lhes as pétalas aos meus olhos....
Tenho um campo coberto de pintinhas amarelas.
Um gigantesco campo de pintinhas amarelas.
Esta paisagem castrada de realidade virou utopia aos meus olhos.
Nos outros olhos continua uma linda paisagem de mal-me-queres.
Cada flor uma pessoa... e são tantas as que não ficam.
Que continue assim e negarei saber quem mal me quis.



30 de março de 2016

Faltam-me as forças.


Não vejo em mim razão alguma para ficar.
Pudesse eu correr e correr... e isso fosse o tanto que preciso para sair daqui.
Pudesse eu ser alma sem corpo e fazer o tanto que faço sendo corpo.
Pudera eu ser tanto para tantos e sou tão pouco.
Que os meus dias fossem anos e que o meu repouso fosse são.
E o tanto que me permito fosse o tanto que consigo.
Faltam-me as forças.







25 de março de 2016

Pesam-me as mãos.


São asas leves as que batem para me levantar.
Mãos tão carregadas de vida.
Sinais de luta, cicatrizes do tempo, mãos de luto.
Mãos que carregam os afetos que não dei.
Mãos que carregam os toques que esperei.
Pesadas do vivido e esperançadas de viver.
São asas utópicas que anseio e que se perdem na chegada.
Asas sem tempo para tentar.
Também elas cheias de metamorfoses e carregadas de vidas.
Por tão pouco tempo viverem carregam a cruz da beleza física.
E por tão belas morrem sem tempo.
Caem-me as mãos pelo peso de serem minhas.




21 de março de 2016

Sou pequenina.



Sou pequenina porque ainda corro para um baloiço.
Sou pequenina porque ainda acho que há gente com sentimentos sem parasitas.
Sou pequenina porque sorrio facilmente para qualquer outra pessoa.
Sou pequenina porque acredito nos outros.
Sou pequenina porque tenho medo do que não vejo.
Sou pequenina porque não tenho vergonha de baloiçar.
Sou pequenina porque mantenho muitos sentimentos sem parasitas. .. e se aparecem os mato.
Sou pequenina porque não penso antes de gargalhar.
Sou pequenina pela esperança que  mantenho na seriedade alheia.
Sou pequenina porque não quero crescer.

7 de março de 2016

Agonia da alma.


A agonia da minha alma prende-me a mim.
Viver presa numa alma que me prende ė uma agonia.
A agonia de uma prisão cega, que ninguém vê,  que só eu sinto.
É assim a agonia da alma.
A revolta do peito,  o nó da garganta, os gestos presos, as mãos geladas e um coração sem peito.
Ė assim a agonia da alma.
Enjoada da própria vida, enojada de outras vidas, cercada de um mundo emundo, agoniada na alma.
É assim a agonia da alma.
Ninguém sente por mim a revolta no peito.
Ninguém desata este nó na garganta.
Ninguém solta os meus gestos presos.
Ninguém me aquece as mãos.
E, no meu peito, não há espaço para um coração desfeito.
Ė assim a agonia da alma sentida no peito.

24 de fevereiro de 2016

Quando escorrego.


Os pássaros acabam sempre por se atirar.
Acabam sempre por voar.
Eu, acabo sempre por escorregar.
Só nunca sei quem estará lá para me apanhar.
Somos cúmplices do vazio, eu e aquele fio.
Volto sempre a escorregar.
Sou amiga dos pássaros.
Procuro um ninho quando pouso e nele me aconchego no repouso.
Sou amiga dos pássaros.
Atiro-me ao vento mas de nada me valem se escorregar.
Nenhuma asa voa sem corpo, nenhum papo se enche sem bico, nenhuma pata pousa sem chão.
Valem-me os pássaros quando me atiro.
Vale-me um chão quando escorrego.
Sou amiga dos pássaros.
De nada me valem quando não estão.

Calçada de volta a casa.



Um dia vais voltar ao mesmo espaço onde te procuro inúmeras vezes.
Nesse dia eu sei que já não farei parte desse lugar.
Vou guardá-lo no coração que não tenho, na memória que perdi e no espaço vazio desse lugar despido de tudo o que se perdeu.
Um dia, quando  voltares, recorda-me sentada numa pedra fria de um granito morto e de um lugar sem alma.
Terei feito o percurso contrário na areia e terei trazido comigo toda uma vida de volta.
Hoje, procuro quem me encontra e encontro quem me procura.
É no leito que me deito que vivo o dia a seguir a ontem.
Ė num banco de madeira que  absorvo o vento, que respiro a maresia e é, aqui nesta areia que os meus pés  caminham.
Sorte a minha que a pedra virou madeira, que o vento virou maresia, que a areia continua a existir... também aqui onde o meu mundo vive comigo.
Só ainda caminho calçada na areia.





15 de fevereiro de 2016

O vento parou.

Corri a persiana e o vento parou.
Tinha chegado como tempestade e alojou-se nos meus ouvidos.
Trouxe a chuva com ele e os dois passaram o dia comigo.
Partiram com a escuridão e deixaram uma alma vazia inundada de sonhos secos.
Desde um dia que a chuva me bateu à janela puxada pelo vento, num simples dia de inverno, que passaram a fazer parte de uma alma cheia de sonhos inundados.
Hoje, em forma de dilúvio, levaram-me à loucura do vazio.
Voltou para me responder. O que me quererá ele fizer?
Veio zangado chamar-me ao mundo e aliviar-me a alma.
Fosse assim tão fácil e estaria de alma vazia e sonhos secos há muito tempo.
Manda em mim e eu não quero.
Mas manda porque tem certeza que pode.
Voltou sozinho e parece que apenas sacode a minha janela.
A janela de um quarto que sabe dos sonhos, com paredes cúmplices de amores, que não tinham vento nem chuva.
Hoje, deito-me na cama depois de ter vivido o dia à espera da noite.
É agora que lhe suplico que me deixe.
É agora que, depois de tão cansada, quero entrar no mundo dos sonhos.
Deixa-me reparar os teus estragos.
Deixa apenas a chuva cair. Preciso dela para não secar.
Mas deixa-me.





22 de dezembro de 2015

As minhas lágrimas que caem de outros olhos.

 
Tal como um piano desafinado ou uma guitarra de cordas soltas, assim são as minhas lágrimas quando caem de olhos alheios e lhe escorrem pelo rosto.
É assim que o nosso sentimento vive em alma alheia.
Foi assim que chorei a despedida da alma alheia, no rosto do lado de lá de mim.
Uma despedida com água de sentimento que cai depois de transbordar os olhos.
Fiz-me cega para sentir mais na alma do que na vista.
Foi assim que chorei em corpo alheio.
Não olhei para trás, mas foi lá que fiquei até que aquelas lágrimas secassem.
Obrigada por olharem para dentro de mim.
 
 

14 de dezembro de 2015

Palavras a mais.




Existem palavras que floreiam a vida.
Servem só e apenas para florear a vida.
Aprendemos palavras, ensinam-nos a dar-lhe significado e depois não se aplicam
Como não sabemos o que são, julgamos o que devem ser e usamos palavras a mais.
Palavras que são um estado e que apenas existem com um verbo atrás.
Há, sem dúvida, palavras a mais.
Se precisam de verbo para existirem, então não existem sozinhas.
Perguntamos inúmeras vezes uns aos outros, és feliz?
Perguntamos inúmeras vezes uns aos outros, estás feliz?
Cá está uma palavra que existe a mais.
Felicidade existe a mais.
 

4 de dezembro de 2015

Laçarote.

 
Para que não me esqueça de pensar em mim atei um laço ao dedo onde estaria o laço de quem poderia pensar por mim.
Dizem-me tantas vezes para pensar em mim e eu não consigo.
Não me culpo por isso.
Existirei enquanto tiver que existir e existirei enquanto houver quem precise de mim.
Existo para viver os outros.
Existo para viver pelos outros.
Que pecado humano pode existir em ser humano...
Que pecado divinal pode existir em não ser humano...
Existo para viver só, mas com os outros.
É por não pensar em mim que me julgam.
Que pense em mim quem me julga e fará o mesmo que eu faço.
Laçarote.
Atem um laçarote no dedo que emprestamos a quem gosta de nós.
 
 

20 de novembro de 2015

Vou deixar de pedir...



 
Quando a minha voz se partir, me cair da boca e se desfizer em pedaços de voz
 
Lembra-te de um lugar assim, onde o vento se inquieta e as alturas lhe dão voz
 
Quando ficar sem voz não deixes de me ouvir nas palavras que escrevo
Se a minha voz secar e não mais voltar a jorrar recorda-me na voz da chuva
Se a minha voz se prender e não mais se conseguir soltar recorda-me  no zumbido do vento
Se a minha voz se secar e prender, recorda-me nos dias de chuva tocada a vento
Quando da minha boca não saírem palavras lembra-te que voltarão a cada dia de tempestade
Espera-me nos dias de vento
Acolhe-me nos dias de chuva
Quando a minha voz se partir, me cair da boca, deixarei de te pedir...
 

19 de novembro de 2015

9 de novembro de 2015

Eu não devia ser de cá.


Não se existe sozinho.
Não consigo entender a insistência na distância entre uns e outros.
Não consigo lidar com as distâncias.
Não sei por onde andam, mas não andam por aqui.
Não se consegue sozinho.
Não consigo entender a insistência na distância entre outros e uns.
Não consigo lidar com as distâncias.
Não sei por onde andam, mas não andam por aqui.
Não se vive sozinho.
Não consigo entender a insistência na distância entre outros e uns.
Não consigo lidar com as distâncias.
Não sei por onde andam, mas não andam por aqui.
Eu não devia viver aqui.

 

4 de novembro de 2015

1 de Novembro de 1971

 
No dia 1 de Novembro foi-me confiada uma herança. Toda as cartas de amor trocadas entre a minha mãe e o meu pai na época de tropa na Guiné-Conacri.
Será a oportunidade para conhecer um pai que não teve tempo de o ser. Mas que foi um namorado!
Quando partiu, há quase 31 anos, uma fita preta envolveu um passado que desde então permaneceu parado numa arca entre rendas, toalhas e lençóis.
No dia 1 de Novembro assumi a responsabilidade de guardar comigo um passado fechado com uma fita preta.
Prometi guardar e só um dia... num futuro mais distante saber o que uniu duas pessoas separadas por uma guerra.
Num dos topos está o postal ao qual não consegui resistir. A minha vontade de pertencer àquele passado, naquele momento, foi maior. Retirei-o, sem nunca desfazer o laço de 31 anos, e as primeiras palavras que li foram "1 de Novembro de 1971".


3 de novembro de 2015

23 de outubro de 2015

Alma esqueleto.

 
"Existe uma flor chamada "diphylleia grayi", conhecida como "flor esqueleto", que fica transparente quando entra em contato com a água. Quando ela seca, ela volta a ficar branca."
 
Tal e qual a minha alma quando chove.
O efeito que a chuva criou.
Choveu num dia em que a alma não se acautelou.
E a cada dia que ela volta, a minha alma transparece.
Se não me virem quando chove, descansem porque estarei só mas bem.
Alma esqueleto.
Dizem que vai chover. Por aqui ainda não se avistam as nuvens.
Tal como a lua cheia traz o lobo, a chuva traz a minha alma esqueleto.
E tal como o homem lobo se esconde também eu prefiro ficar só.
Um dia... quando os dias de chuva não forem um mito, à minha alma, que também eu me tenha libertado deste tormento.
Assim como o homem lobo desapareceu quando a lua cheia passou a ser só uma fase da lua.
Que a minha alma se molhe e que a chuva tenha passado a ser só um estado do tempo.
 
 
 
 
 
 

22 de outubro de 2015

Inconsciência da inconsciência.



Não se culpa a inconsciência da inconsciência, nunca se culpa.
Mas nós, que conseguimos consciencializa-la nos outros temos que aprender a viver com ela.
E vale apena tentar consciencializar quem não tem consciência? Não.
A inconsciência nunca vai deixar de o ser.
É e será sempre uma verdade para quem a vive.
E uma não verdade para quem a assiste.
O "inferno" somos uns na inconsciência dos outros.
É só mais uma consequência da imaturidade!
E quem vê de fora vê melhor.
Só quem consciencializa de fora consciencializa a inconsciência alheia.
Brutos.
Brutos de consciência os inconscientes.
Brutos.
Brutos de consciência os conscientes da inconsciência.
Não se culpa a inconsciência da inconsciência.
Mas culpa-se a consciência da inconsciência.
Essa sim, é culpada.

19 de outubro de 2015

14 de outubro de 2015

Perdi o medo.

 
Perdi o medo de olhar para trás.
Aprendi a vê-lo. A ele, o trás.
Lá só já vejo o que devo ver.
Cobri o mal sem o matar.
Só vejo o que devo ver.
Pudera eu matá-lo e não escolheria o que ver.
Fui raiz seca.
Fui lua sem quartos.
Fui sol sem poente nem nascente.
Fui prato vazio.
Fui copo de água debaixo de uma torneira comum.
Nunca fui...
Marioneta.
Planta.
Flor.
Nunca fui o desgosto do rosto do alguém.
Nunca fui tristeza fora da toca.
Olho para trás e vejo que nunca fui só.
Só olho para trás porque nunca fui só!
 
 
 
 
 

10 de agosto de 2015

Talvez morra amanhã.


Hoje vou colher as flores que vais colocar em mim.
Amanhã só quero mal-me-queres.
Porque talvez morra amanhã.
Lembra-te que quero que me vistas o vestido amarelo. Vai ficar bonito com as flores.
Não te esqueças que quem me acompanhar trará consigo um bocadinho do meu tesouro.
Deixa escolher. Pode ser que alguém queira algum de volta para recordar.
Amanhã, se não me encontrares, estarei por perto, a ver o mar.
Deixa-me descalça, não vou precisar dos sapatos.
Podes cobrir-me os pés com mal-me-queres.
Que sejam Malmequer dos campos, estrelas de ouro.
Talvez morra amanhã.
Pearl S. Buck colocou Peónia a viver ente o mal me quer e o bem me quer.
Uma história de amor da vida real.
Eu vivi entre um e outro até hoje.
Se realmente morrer amanhã revejam-me num Malmequer.
Que a minha vida tenha sido uma história de amor.


27 de julho de 2015

Procurei-me


Procurei-me na luz, no mar, no vento.
Encontrei-me aqui em frente a ti que me lês.
Já um dia te procurara na luz, no mar, no vento.
Encontrei-te no escuro, na areia e na hora mais abafada do dia.
Hoje, apenas procuro a luz.
O mar, esse, mesmo que por vezes em revolta, encontrei.
O vento, esse, vem de quando em vez e brinca com o mar.
Falta-me a luz, só a luz.
Posso viver sem mar.
Posso viver sem vento.
Não posso viver sem luz.